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A SAGA DOS ITALIANOS NO BRASIL
Eles deixaram
a pátria, amigos e até as famílias para buscar a terra próspera e fértil
do Brasil. Na pouca bagagem, além do sonho de uma vida digna, da prosperidade,
o conhecimento. Com eles, surgiu uma sociedade organizada. Fundaram
associações, clubes, sindicatos, indústrias, colônias agrícolas e até
cidades. Ensinaram aos brasileiros o valor da cultura, da arte e o trabalho
participativo, em comunidade. O Brasil deve um pouco
de sua história aos imigrantes italianos.
Assim
como os alemães, japoneses, holandeses, coreanos, portugueses
e tantos outros imigrantes, os italianos vieram atraídos pelas
promessas do governo brasileiro que acenava com vantagens mirabolantes.
Terra fértil em abundância, trabalho nas ricas plantações
de café, das quais os colonos poderiam tornar-se proprietários
em poucos anos. Na Itália da época (recém-unificada),
a maior parte das terras pertencia a pessoas de grandes fortunas, quase
sempre da antiga nobreza. Os lavradores, (colonos), ocupavam lotes pequenos,
não raro mais de um para cada lote. A política do país
vivia sob constante tensão e para piorar ainda mais, uma epidemia
de doenças, entre essas a malária flagelava o norte da
Itália, tornando incerta e penosa a luta pela vida. Era dessa
região (Vêneto), onde concentrava 80% dos camponeses e
lavradores pobres, que vieram para a América do Sul, especialmente
o Brasil.
Capital
da Itália Em São Paulo vivem hoje aproximadamente
6 milhões de italianos, computando-se os imigrantes e seus descendentes.
O Consulado Italiano na Capital Paulista estima que 1/3 da população
paulistana e o mesmo índice à nível estadual, seja
de italianos e oriundis. No Espírito Santo, mais de 70% da população
descende de filhos da Velha Bota. No início do ciclo imigracionista
São Paulo vivia uma fase de transformação de pacata
vila a uma cidade grande, com a chegada da ferrovia que vinha de Santos,
da iniciação industrial e dos imigrantes.
A
maioria dos italianos que ficou em São Paulo veio para o trabalho
na lavoura. Muitos se diziam agricultores por exigência do Império,
mas na verdade não sabiam trabalhar no campo. Com conhecimento
em construções muitos artesões encontraram trabalho
como pedreiro, carpinteiro, fachadas e aplicação de gesso.
Ajudaram a transformar e moldar a arquitetura paulistana da época.
De acordo com dados do Consulado Italiano, 90% do patrimônio monumental
da cidade foram feitos por artistas italianos, o que acabou refletindo
nos costumes, na lingua, culinária e cultura brasileira.
No
campo, eles trouxeram tecnologia e o conhecimento da participação
comunitária, organizada. Criaram um sindicato próprio
para defender seus direitos junto aos fazendeiros. Fundaram colônias
que mais tarde se tornaram cidades, como Antônio Prado, Bento
Gonçalves e Euclides da Cunha, Caxias do Sul no Rio Grande
do Sul e Urussanga, em Santa Catarina. Também contribuiram para
o desenvolvimento de dezenas de outras cidades. Na região destacam-se
Cerquilho, Salto, Itu, Tietê, Conchas, Jumirim e Piracicaba entre
dezenas de centros.
A grande maioria dos italianos chegou entre
1875 e 1920 cerca de 1,5 milhão de pessoas e a maior parte
ficou no Estado de São Paulo.
Os primeiros imigrantes (com saída registrada)
pelo governo italiano chegaram ao Brasil em 1871, mas desde o período
do descobrimento eles tem forte ligação com o país.
Na embarcação de Pedro Alvares Cabral, um dos armadores
era italiano e entre 1530 e 1550, os irmãos Adorno foram os pioneiros
no cultivo da cana de açúcar no Brasil. A grande maioria
no entanto chegou entre 1875 e 1920 registrando aproximadamente 1,5
milhão de pessoas (homens, mulheres e crianças), sendo
que a maior parte ficou no Estado de São Paulo.
Professor
da língua, pesquisador da imigração italiana, Andrea
Ruggeri é também presidente do Centro da Emigração
Italiana de Itu, vice-presidente do Comitato degli Italiani allestero
(Comitê dos Italianos no Exterior) regiões de São
Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre e Rondônia e correspondente
do Consulado Italiano para a Região de Itu. Para ele, a imigração
italiana no Brasil se divide em três etapas: a imigração
em massa entre o final do século passado (maior parte no período
do Império de Dom Pedro II) e início deste. A grande
maioria era lavrador, que vinha com a missão de substituir os
escravos. Atraídos pelas inúmeras promessas feitas pelo
Governo Imperial brasileiro e também pelo incentivo do seu próprio
governo para que emigrassem, os italianos que viviam uma situação
crítica no campo, por causa do rigoroso inverno, falta de terra
para cultivo, partiram para o Brasil em busca do sonho de uma uma nova
vida, diz.
No Espírito Santo mais de
70% de seus habitantes descendem do Velho Mundo
O
êxodo de italianos nessa época foi também para outros
países da América do Sul, como Argentina e Uruguai. Os
navios que partiam dos portos de Gênova e Nápoles, paravam
no Brasil para descansar. A viagem, além de longa, se tornava
ainda mais penosa devido a quantidade de pessoas que se comprimiam até
mesmo no porão dos navios. Muitos acabavam desembarcando nos
portos do Espírito Santo, Rio de Janeiro ou Paranaguá.
Os que vinham com destino certo para o Brasil desciam no Porto de Santos
e de lá seguiam em carroças ou trem, para o Interior.
Por esse motivo a forte influência italiana no Espírito
Santo, onde mais de 70% de seus habitantes descendem do país
de Dante Alighieri. Dom Pedro II não queria que os imigrantes
desembar-cassem no Rio de Janeiro, pois entendia que depreciaria a capital
federal a convivência com os chamados negros de pele branca.
Pesquisas sobre o assunto mostram que a intenção do Imperador
na verdade era estimular a imigração principalmente a
européia para substituir o negro no trabalho do campo e ao mesmo
tempo promover o branqueamento do Brasil, pois a população
branca estava inferiorizada numericamente em relação ao
negros e mulatos. Outra preo-cupação era garantir o povoamento
dos pon-tos mais distantes do país, como os Estados do Sul e
assegurar a soberania nacional so-bre essas terras.
Em
pleno regime republicano um dos primeiros atos do presidente Marechal
Deodoro da Fonseca, foi determinar que não teriam acesso aos
portos brasileiros como imigrantes, os indígenas da Ásia
e da África. Mesmo assim, os imigrantes japoneses que-bram essa
discriminação em 1908.
Pesquisas mostram que o Império
queria estimular a imigração principalmente a européia
para substituir o negro no trabalho do campo e ao mesmo tempo promover
o branqueamento do Brasil.
O italiano tinha o perfil ideal: europeu e branco,
latino, católico-romano, o que o tor-nava plenamente compatível
com a sociedade e a cultura que se desejava implantar. Mas aí
é que o Imperador se enganou. O lavrador italiano era em
sua maioria analfabeto, não sabia ler e nem escrever, mas tinha
uma cultura muito mais avançada que o brasileiro da época.
Vinham de um país onde apesar das dificuldades, nos finais de
semanas costumavam se reunir para discutir o trabalho, trocar informações,
tinham acesso a cultura, sabiam se orga-nizar, viver em comunidade.
Chegaram ao Brasil, começaram a construir casas com tijolos que
eles mesmos fabricavam. Naque-la época só existiam casas
construídas de taipas (barro), revela Ruggeri.
Foram
os italianos os precursores da organização de trabalhadores
em comuni-dade em defesa de uma causa. Fundaram sindicatos de defesas
de seus interesses, bandas de músicas, associações,
clubes (o Palestra Itália), hoje Palmeiras foi um deles.
Em Itu fundaram a Associação Italiana há 106 anos,
que nasceu da necessidade de resolverem questões entre os lavradores
e os fazendeiros. Reivindicavam naquele tempo coisas que outros segmentos
da sociedade brasileira ainda não conquis-taram.
A
chegada dos italianos, exercendo diferentes atividades como pizzaiolo,
peixeiros, vendedores ambulantes, jorna-leiros, floristas, engraxates
e até comer-ciante de ilusões (como chamavam os ho-mens
do realejo), mudou radicalmente a ele-gante e pacata metrópole
dos famosos barões do café. Com eles São Paulo
ganhou vida, alegria, misturaram línguas, culturas e culinárias.
Se tornaram base da força tra-balhadora das fábricas,
oficinas e esta-belecimentos comerciais. Cresceram econo-micamente,
levantando a até então quase inexistente faixa intermediária
da popu-lação, criando a chamada classe operária
e inserindo na cidade novas idéias que re-sultariam em movimentos
operários para reivindicar seus direitos de trabalhador.
A forte influência italiana na vida brasileira pode ser medida
na virada deste século. Em 1900 a cidade de São Paulo
tinha aproximadamente 250 mil habitantes, dos quais pelo menos 150 mil
eram italianos natos. E se não foram os principais respon-sáveis
pelo desenvolvimento cultural, agrícola e principalmente industrial
do Es-tado e por consequência do país, grande mérito
disso se deve a eles. 81% da mão-de-obra existente na época
era italiana. Ruggeri afirma que nesse mesmo período, das 50
indústrias que a capital paulista possuia, 47 pertencia a família
Matarazzo, imigrante italiano e grande precursor da era industrial do
país. Era ele quem garantia apoio (casa, comida e trabalho) a
muitas famílias que vinham da Itália. Francesco Matarazzo
começou seu império com uma Fábrica de banhas em
Sorocaba. Os porcos para abate ele comprava em Tatuí, Capão
Bonito, Itapetininga, Tietê e vinham tocados como
boiadas pelos campos.
Dez anos antes, em 1890 evidenciaram o sentido da integração
ao fundarem a Cruz Branca Italiana, uma entidade voltada a so-correr
os imigrantes e vítimas das febres infecciosas que chegavam na
cidade de Santos. A segunda etapa da imigração acon-tece
no período pós guerra, entre 1946 a 1950. Muitos imigrantes
conseguiram contatar os parentes na Itália e convencê-los
a vir para o Brasil. Aportaram no país mais 50 mil pessoas. Parte
deles funda o último núcleo de colonização
no Estado de São Paulo Pedrinhas, agora município.
Francesco Matarazzo começou seu império com uma
Fábrica de banhas em Sorocaba. Os porcos para abate ele comprava
em Tatuí, Capão Bonito, Itapetininga, Tietê e vinham
tocados como boiadas pelos campos
A última etapa do processo de imigração italiana,
nos anos 60, trouxe profissionais liberais, pessoas com formação
universitária e com eles, começaram a surgir os turistas,
atraídos pelas inúmeras belezas que o país tem
Estudioso da história da imigração italiana no
Brasil, Andrea Ruggeri está há 10 anos no país.
Vive em Itu onde além dos compromissos com o Patronato, Comitê
e CEI, leciona italiano. Nascido em Lugo di Ravenna, Província
da Emilia Romagna, defende a modernização da cultura italiana
e maior integração entre os descendentes e a terra de
seus antepassados.
Graças ao trabalho de seu escritório, nos últimos
7 anos aproximadamente 50 mil pessoas de várias cidades da região
e outros Estados, conseguiram obter a cidadania italiana. Para ele o
novo italiano não é saudosista. Se interessa pelas festas
da Achiropita, de San Genaro, mas seu maior interesse é o lado
cultural, tecnológico, educacional, comercial e até político.
Ruggeri revela que a maioria das pessoas quer a cidadania para ter o
passaporte vermelho, que lhe abre as portas da Europa. No entanto, durante
o processo as pessoas descobrem a sua memória, a sua orígem
e passam a buscar mais e mais conhecimento sobre isso.
800% de aumento de turistas - Estatística do governo italiano
mostra que nos últimos 5 anos o volume de turistas brasileiros
que visitaram a Itália aumentou 800%. Ruggeri credita um grande
per-centual desse crescimento ao número de dupla cidadania. Sem
dúvida que boa parte desse aumento vem dos novos italianos. Um
exemplo é a região de Lucca, na Toscana, segunda mais
visitada pelos ítalo-brasi-leiros, pois aqui vivem mais de 300
mil descendentes luchesi. O jovem que obtém a cidadania não
quer emigrar, quer viajar, conhecer a terra de seus antepassados e voltar.
Ele quer qualidade, música igual ou melhor a que tem no Brasil
e assim por dian-te, diz.
O imigrante italiano
foi e é um elo importante no processo de desenvolvimento do Brasil
e por consequência tem sua contribuição nesses 500
anos.
Projeto 500 anos - O Centro de Emi-gração Italiana está
fazendo a divulgação do evento na Itália. Um filme
sobre o tema será lançado no início do próximo
ano, com direção de Ricardo Barreto e a participação
de grandes artistas brasileiros. Será um curta-metragem de 40
minutos, denominado La Società (A Sociedade). Outra novidade
é um livro sobre a imigração italiana com fotografias
e relatos. O Brasil tem que recuperar sua memória nesses
500 anos e analisar o que realmente valeu. A imigração
com certeza faz parte desse processo, afirma Andrea.
Os italianos se
destacaram em várias frentes. Contribuiram na condução
de um país que hoje respeita e é respeitado em todo o
mundo
No setor cultural é fortíssima a influência
italiana. Entre os muitos que aqui viveram estão nomes como Ruggero
Jacob-bi. Adolfo Celi, o primeiro de destacada atuação
na literatura e o segundo na vida teatral. Muitos vieram e partiram,
outros ficaram para sempre. Este é o caso de Pietro Maria Bardi,
crítico de arte e Lina Bo Bardi, arquiteta. Foi Pietro quem criou
o Museu de Arte de São Paulo, projetado por Lina. Outros personagens
não menos importantes contribuiram com a arte e cultura brasileira,
como Volpi, Brecheret, Gianni Ratto, Alberto dAversa e Paulo Rossi,
Cândido Portinari, Menotti del Picchia.
Por:
Claudio Rostellato
Revista HOJE
www.associb.org.br
- Sorocaba - SP
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